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Monthly Archives: Fevereiro 2012

Há umas semanas, a meados de Janeiro, houve uma chuvada incrível, ainda mais intensa do que o costume nestes dias de verão tropical, e a cidade ficou coberta de água; na verdade ela vergou sob o poder da água, que se insurgia contra as estruturas sólidas, e brotava de todos os lugares, em todas as direcções.
De carro, passámos por uma rua onde uma árvore enorme estava tombada, perpendicular à estrada, bem à nossa frente, na sua majestade ferida, com todos os seus ramos ainda verdes agitados pelo vento. Disseram-me que isso acontecia porque, como a cidade é bastante construída, as árvores não tinham espaço para as raízes, e, não tendo raízes, caíam com mais facilidade. Fiquei a pensar nisso, e de vez em quando vem-me à cabeça essa ideia.

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Mais palavras cuja memória me surpreende aqui, embora não sejam portuguesas, mas tenham igualmente origem latina. Desta vez, as palavras italianas para os sentidos, no caso da audição e visão. E que bem que lhe ficam estas palavras, com este nosso entendimento da sua raíz e do uso que lhe demos nós na nossa língua.
Sentire. Ouvir, não será a porta de entrada para sentir?
Guardare. Ver, ver intensamente; não será uma forma de tentar guardar?
Acho estas sobreposições de sentidos verdadeiramente bonitas, e renovam em mim o fascínio pela língua, pelas línguas.

Não tenho dúvidas, a FAU é dos edifícios mais bonitos que já visitei, e a sua memória assalta-me frequentemente. Já mencionei que é uma faculdade que não tem uma única porta? Entra-se como se não se entrasse, como se se estivesse sempre dentro, e sempre fora. E vale a pena entrar, porque dentro dela, dentro da sua biblioteca, dentro de livros, gavetas ou tubos, há relíquias sem fim.

Dormir num futon, ter à mão uma biblioteca imensa da Cosac, a par de um sofá junto da janela para ler, e a companhia de duas gatas. Fora a maravilhosa companhia humana, e a presença assídua das amigas. Se eu pudesse encomendar a minha estadia, não saberia encomendar melhor.