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Língua

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Oswald de Andrade

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«Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?»

in Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

Já o disse mais do que várias vezes, mas repito e reitero: os brasileiros é que percebem de emoções. Além disso, e tal como já o disse mais do que várias vezes, pegaram na nossa língua, um sistema já perfeitamente estabilizado e comprovado, e conseguiram retirar-lhe os excessos, sacudir-lhe as teias de aranha, e aplicá-la àquilo que verdadeiramente importa. A língua portuguesa para eles não é uma herança a embalsamar, é uma verdadeira ferramenta.
Dito isto, fico muito contente por ver palavras tão simples aplicadas tão eficazmente no plano emocional.
Pesado ou leve não tem apenas a ver com a pressão da gravidade e não só se mede em quilos. Certas situações, ou mesmo pessoas, são pesadas, dizer as coisas de uma certa maneira torna-se pesado. Mas há também pessoas leves, maneiras leves de ver a vida, recusando o excesso de bagagem e todos os pesos e pressões.
Também a temperatura corporal não se mede apenas com um termómetro. Quando se sentem as veias latejar e o sangue a aquecer, não falta alguém que nos aconselhe a não esquentar. O melhor é ficar frio, mesmo.
Nada que nós não soubéssemos já, mas não usamos o suficiente, nem com tanta… leveza.

Mais palavras cuja memória me surpreende aqui, embora não sejam portuguesas, mas tenham igualmente origem latina. Desta vez, as palavras italianas para os sentidos, no caso da audição e visão. E que bem que lhe ficam estas palavras, com este nosso entendimento da sua raíz e do uso que lhe demos nós na nossa língua.
Sentire. Ouvir, não será a porta de entrada para sentir?
Guardare. Ver, ver intensamente; não será uma forma de tentar guardar?
Acho estas sobreposições de sentidos verdadeiramente bonitas, e renovam em mim o fascínio pela língua, pelas línguas.

«O vocábulo puro, em que me amparo
esquiva-se a meu jugo, e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valerosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro – e ver que o mundo é pouco.

Antes os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo a ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
– permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto – em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.

E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.»

Thiago de Mello, in Apresentação da Poesia Brasileira

«Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, era. Até ao fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois ‘eu’ é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo.

Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior – é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana – e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.

E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só me posso agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.»

Clarice Lispector, in A Paixão Segundo G. H.