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Personagens

O homem que desenha, sentado no parque, debruça-se sobre o caderno e sobre as coisas que à sua frente se desdobram. Desenha as árvores, elegantes ou frondosas, e os pássaros que por entre os seus ramos encontram caminhos. Observa as plantas, a relva, as flores, a terra por debaixo de todas elas. Vê a mulher que passa, e deseja desenhar a mulher, mas ela continua passando. Não se presta à imobilidade do desenho, e o homem que desenha, sentado no parque, desejaria que a mulher fosse um gato deitado na relva – o mesmo sorriso iminente, a mesma calma, o mesmo ar de felicidade serena, mas enroscado no solo à sua frente, saboreando o sol. «Como se chamará ela?», pensou, e procurou, mais do que um nome, uma forma de a chamar. «Quem é ela, a mulher que passa no parque? O que fará ela aqui? Parece jovem… Estuda? Ou estará indo para o trabalho? Será paulista? Estará de passagem? Quantas vezes terá atravessado este parque? Irá ter com alguém? Porque passa ela, sozinha, pelo parque?». E o homem que desenha, sentado no parque, continua desenhando a relva, o lago, e as árvores, e sobre eles paira, em traços leves, o rasto de uma mulher que passa pelo parque, quem sabe jovem, quem sabe de fora, quem sabe a caminho do trabalho.

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Outra música estava já no começo, e, com dois passos decididos, o homem que estava no canto junto à porta, procurando com o olhar a aprovação de Maria Firmina, veio e tirou ela para dançar. Firmina, ao levantar-se da cadeira, direita e veloz, fez força na barriga para esconder qualquer gordurinha saliente, e se jogou naqueles braços. Pousou sua mão no ombro dele, os dedos aristocraticamente colocados, e sentiu a mão do moço na curva das suas costas, a palma aberta, demonstrado as intenções honestas, ou domando a vontade de agarrar. Nessa noite, era a primeira vez que Maria Firmina deixava o seu bebê em casa, desde que ele tinha nascido. Estava feliz por estar dançando um chorinho de novo, e ao pensar nisso, Firmina sorria. E ao ver o sorriso bonito dela, a mão que a segurava com a palma aberta apoiada nas suas costas, puxou-a suavemente para um pouco mais perto. Ao sentir-se de novo nos braços de alguém, ao invés de com alguém nos braços, Firmina relaxou a pose e deixou que seu queixo pousasse nos ombros do moço. Por uns momentos, Maria Firmina fechou os olhos, e esqueceu tudo. Esqueceu o instante em que viu a cor do teste mudar, confirmando a sua gravidez (como uma pequena diferença de cor pode mudar tudo?). Esqueceu a briga que seu namorado armou quando soube, aquele ar de zanga e de medo na cara dele. Esqueceu o dia em que, voltando atrás com sua barriga pesada, para buscar o guarda-chuva que tinha esquecido, surpreendeu a mãe soluçando ao costurar o casaquinho do bebê. Esqueceu as dores de parto, esqueceu-se de pensar se lhe doía mais as noites mal dormidas, ou deixar o nenê pela manhã no infantário para poder ir trabalhar para o pagar. Maria Firmina, um pouco solta pela cachaça, relaxada pela música, embalada nos braços de alguém que a segurava firme, esquecida de tudo, sentiu seus peitos encostados no peito do homem que a tinha nos braços. E lembrou de novo para o que serviam seus seios antes de servirem para alimentar.

O despertador do senhor Osvaldo tocou às 6h, e às 6h10 ele ligou a água do duche. Seu Osvaldo, cujos passos ecoaram pela casa vazia quando passou da casa de banho para o quarto, lembrou-se da mãe. A sua mãe era portuguesa; veio para o Brasil em 1970 e qualquer coisa, quando o irmão fugira à guerra colonial, e ela, sem nada que a prendesse a um Portugal rural, desertificado e empobrecido, veio também. Cuidou do irmão, até ele encontrar uma baiana que o levou para viver lá longe, em Salvador. A mãe de Osvaldo não se sentia bem acolhida lá (na verdade ninguém sequer lhe perguntou se ela queria ir), e por isso ficou pelo Rio, onde tinha desembarcado. Arrumou emprego numa lavandaria, e acabou por casar com o filho dos donos, o pai de Osvaldo, um homem sozinho de seus quarenta e muitos. O pai de Osvaldo brigou feio com a sua mãe (a avó de Osvaldo) e largou a lavandaria que era proriedade dela. Rumou a sua revolta a São Paulo, mas lá, marcado por essa amargura que lhe ia crescendo, nunca chegou a encontrar um emprego fixo. A mãe de Osvaldo, a portuguesa que sabia cuidar dos seus homens, foi paciente na miséria e aprendeu a fazer render o feijão. A Osvaldo nunca faltou nada, e sempre tinha as roupas mais cuidadas da escola, cosidas e remendadas sempre que necessário, e cheirando a sabão. Osvaldo pegou na sua roupa, que tinha deixado pronta na cadeira no dia anterior, e vestiu-a procurando o cheiro das camisolas de infância. Para chegar ao trabalho, precisava de entrar no comboio, sair na Barra Funda, e depois apanhar um autocarro que passasse na Consolação. Fez tudo isso com o seu jeito habitual, silencioso, quase reverencial no contacto com o cobrador, que sabia perfeitamente quem Osvaldo era – o homem aprumado que vinha todos os dias com olhar distante, e guardava o passe sempre no mesmo bolso do casaco – mas nem por isso recebia um cumprimento diferente. No comboio, escolheu a carruagem do costume. Quando chegou na Barra Funda olhou de longe os casarões ajardinados, e endireitou as costas. No ônibus deu o lugar a uma mulata que vinha carregada de sacos, e fez o percurso em pé. Às 8h05, já sentado na portaria, sorriu aos primeiros trabalhadores a entrar no prédio, o casal de advogados que sempre chegava cedo. Bom dia, disse, e acabou de ajustar a manga esquerda da camisa, preparando-se para aguardar as idas e as vindas dos outros.