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Preta e Filó

Em vários momentos, noto que valorizo mais o processo do que o final. No final, eu vou voltar. Voltar para casa, voltar para Portugal, voltar ao que eu já era. Mas, no processo, transformei-me, vivi, aprendi. Isto não é mais do que um cliché. Mas é um cliché vivo, uma pessoa que o confirma, que o testemunha. No final, que é o ponto onde estou agora, eu volto. E volta comigo o Brasil, volta a leveza de sentimentos, a vontade de sorrir, o saber que a vida é minha por direito, tanto natural como adquirido. No final, que é este agora, continuo a estar em processo. Passou por mim a experiência de ir, a experiência de voltar, e isso também é um processo. No final, é um processo.

Dormir num futon, ter à mão uma biblioteca imensa da Cosac, a par de um sofá junto da janela para ler, e a companhia de duas gatas. Fora a maravilhosa companhia humana, e a presença assídua das amigas. Se eu pudesse encomendar a minha estadia, não saberia encomendar melhor.

Há uma frase de que me tenho lembrado muitas vezes, ultimamente, por várias razões. É a frase do Lampedusa “Para que tudo fique na mesma, é preciso que tudo mude.” No livro onde é escrita, O Leopardo, ela é proferida por um jovem bravo, que desta forma se propõe endossar uma revolução para que a ordem se mantenha. E é isso mesmo que é preciso, parece-me. Se nada mudar, nada continuará igual.

Bom. Ao voltar a São Paulo, a cidade é geograficamente a mesma. Não vou perder tempo contrapondo como a própria cidade se alterou enquanto estive fora – prédios que se constroem, lojas que abrem, estradas que se fecham – mas mesmo nas coisas mais pessoais, sinto que não volto ao mesmo. A casa onde morava e para a qual voltei não é a mesma. Não é mais a casa onde eu vivia com uma brasileira simpática que eu mal conhecia e com quem tudo estava por descobrir. A brasileira continua simpática, mas a casa já não é a mesma. Agora ela tem um passado, coisa que dantes não tinha. Agora é a casa onde já se viveu. Precisamente, se eu me quisesse manter na casa nova, a viver com alguém que estava por descobrir, teria de mudar de casa. Se me quisesse manter na cidade nova, onde tudo era estranho, teria que ter mudado de cidade, coisa que não fiz.

Quando penso nisso, penso na inutilidade de querer fixar as coisas como elas são.

Mas felizmente há o lado bom deste constante movimento das coisas, enquanto as mantemos. Hoje os lugares que os ônibus anunciam – Praça Ramos, Terminal Princesa Isabel, Metrô Ana Rosa – não são mais mensagens indecifráveis, são sítios que têm uma presença física na minha memória. Precisamente, o gosto por manter  algumas não é porque dessa forma elas se fixam, é porque dessa forma elas avançam. E as que não avançam para onde gostaríamos mudam-se, para que se mantenham na mesma.

Dito isto, estou numa casa nova, para que tudo se mantenha. E quanto ao blog, mantêm-se, para que possa evoluir.