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Vegetal

Já vos disse que São Paulo é muito verde? Mesmo? Pois é, pode ser difícil de acreditar, mas é verdade. Esta gigante selva de betão, da qual só se vêm prédios à chegada ao aeroporto, esta extensão infinita de área construída, é também uma cidade verde, onde as flores abundam e os pássaros chilream. Ou seja, à escala do edifício, do ponto de vista de um avião, sim, ela é feita de cimento. Mas à escala humana, ao nível da rua, do chão, dos lugares onde estão as pessoas, está coberta de um verde luxuoso, exuberante, omnipresente, que vai despontando sempre que tem espaço, e reclama para si todos os lugares. Gosto, muito, disso. A dicotomia cidade vs. natureza é abstracta e impossível; se não houver natureza na cidade, a cidade morre. E esta cidade não precisa de provar a ninguém que está bem viva.


Há umas semanas, a meados de Janeiro, houve uma chuvada incrível, ainda mais intensa do que o costume nestes dias de verão tropical, e a cidade ficou coberta de água; na verdade ela vergou sob o poder da água, que se insurgia contra as estruturas sólidas, e brotava de todos os lugares, em todas as direcções.
De carro, passámos por uma rua onde uma árvore enorme estava tombada, perpendicular à estrada, bem à nossa frente, na sua majestade ferida, com todos os seus ramos ainda verdes agitados pelo vento. Disseram-me que isso acontecia porque, como a cidade é bastante construída, as árvores não tinham espaço para as raízes, e, não tendo raízes, caíam com mais facilidade. Fiquei a pensar nisso, e de vez em quando vem-me à cabeça essa ideia.