Quantas vezes eu não fiquei a olhar para estas janela, voltadas para as traseiras de minha casa? Já conversei bastante aqui, sobre janelas, em particular sobre aquelas que são as únicas acesas quando a insónia nos leva à janela. Quem são esses desconhecidos, e o que saberão sobre nós? E o que imaginam sobre nós? Reconhecem-nos como nós os reconhecemos? Serei a menina do andar da frente, que estende roupa toda a terça-feira, que fala com os gatos pela manhã, e à noite poe-se a cismar, sentada, olhando para as janelas em frente?

«Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?»

in Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

O viaduto da estação de metrô Sumaré. Já aqui deixei descrita, num post acerca de memória, a impressão que me causou estar a atravessar à noite o viaduto que se vê ali ao fundo, paralelo a este. Nesse dia, ainda não tinha tido o privilégio de estar deste lado. De um lado ou do outro, de dia ou de noite, deixa-me sempre um sorriso, esta interseção de caminhos.